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A maldição do ouro

A MALDIÇÃO DO OURO

Babau, caboclo ainda jovem, trabalhador da palha de cana na zona da mata sul de Pernambuco. Vida difícil. No período de entressafra, a exemplo de milhares de nordestinos, chamados de “bóia-fria”, é compelido a migrar para outras regiões em busca de ocupação rentável a fim de garantir o pão de cada dia.

Como todo mortal, tinha o direito também de sonhar. E sonhar com vida3 melhor. Quem sabe, um dia ficar rico. Nem que seja descobrindo uma botija. Botija? Existe botija? Ou não passa de lenda? Não. Lendas há, certamente, em torno de botijas; mas botijas já foram encontradas, em terras desse Nordeste, cheio de contrastes, entre o triste e o belo. Daí as lendas, os sonhos.

Quem sabe, uma botija repleta de ouro, naquelas terras férteis da zona da mata. Terras palmilhadas por Babau e tantos outros trabalhadores da palha de cana, cujas riquezas só tinham uma direção: o bolso do senhor de engenho. Aos escravos, apenas o trabalho pesado. Naqueles tempos, sem a rede bancária que há hoje, não raro, os senhores donos das riquezas guardavam suas patacas de ouro em baús e jarras enterradas no subsolo.

Tudo isso suscita o disse-me-disse, as fantasias, as lendas no imaginário coletivo. E Babau não fugia à regra. Tinha o direito de sonhar. Sonhar um dia ficar rico, de repente, frente a uma botija. E, quem sabe, em terras mesmas daqueles engenhos onde calejava as mãos e derramava suor cortando cana para enriquecer os proprietários, senhores e coronéis dos engenhos.

Sabia ele que “o risco que corre o pau, corre o machado”. Ou seja, a riqueza que chega de repente, fácil, facilmente pode evaporar-se, diluir-se. Questão de sorte. Mas não era demais sonhar. Sonhar em ficar rico. Ou, quando nada, melhorar de vida. Engordar a feira para alegria dos meninos e da mulher. Que o aguardam, o esperam de volta, a cada migração.

Corria o ano de 1977. De repente, a notícia: Engenho Jindaí, zona da mata sul, município de Rio Formoso. Um trator, fazendo a terraplenagem para uma nova estrada por aquelas bandas, perto de um pé de fruta-pão, arranca um baú antigo repleto de moedas de ouro. Era uma botija de verdade. As moedas se espalham pelo chão transformando a lenda da botija encantada em uma realidade concreta.

E Babau, a exemplo de outras pessoas da redondeza, corre para lá, a fim de apanhar moedas. Moedas de ouro. Enche bolsos e até as pernas da calça, amarradas à altura dos pés, e dispara para casa. Aliás, anda com dificuldade com o peso (treze quilos e meio) das moedas.

O novo rico, com a mesma habilidade com que enfrentava a lida dura do corte da cana, põe a fortuna em uma mochila e guarda-a em lugar “seguro”, na palhoça onde morava. Não deu outra: movido e comovido pelo achado, vai comemorar no barracão mais próximo. Enche a cara de cachaça, a ponto de ser conduzido para casa por alguns amigos de farra.

Dia seguinte, acorda e vai buscar o tesouro. Qual não foi a surpresa: encontra o lugar vazio, limpo, sem ouro e sem nada. Um vizinho, esperto, aproveitando-se do vacilo, rouba o saco e desaparece com a mochila de ouro. Até hoje, para desencanto desse caboclo que anoitece rico e amanhece novamente pobre, na desgraça.

Vinte e dois anos depois da descoberta, o Jornal do Commercio volta ao lugar, entrevista algumas pessoas que ficaram ricas com a botija de ouro, e as encontra em péssimas condições de vida, todas, sem exceção, inclusive Babau. Daí a manchete com que circulou esse periódico, edição do dia oito de agosto de 1999: “A Maldição do Ouro, vinte e dois anos depois”. A alegria do achado virou pesadelo.

Por Manoel Neto Teixeira

(Manoel Neto Teixeira, jornalista e professor, é membro da Academia Olindense de Letras)
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