Materiam Superabat Opus

A revolução de 1817: o livro de Eduardo

Compartilhe:

Por Luzilá Gonçalves Ferreira

(Sócia-efetiva da Academia de Letras de Garanhuns)

Em plena quarentena, quando nos tinham avisado que o “fique em casa” era só por algumas semanas, (ledo engano), me chegam três ótimos livros. Formas diferentes, meios de expressão diversos, assuntos diversos todos eles atestando da seriedade e confiança no poder da palavra. São dois livros de poemas, “O solene sabor das coisas inúteis” de Hildeberto Barbosa Filho e “ O  pombo negro dos sobrados” de Nauro Machado. E um livro relativo a história de Pernambuco, “A revolução de 1817” de Eduardo Miranda Brandão.

Três belos documentos que, de algum modo, nos levam a refletir sobre o momento que estamos enfrentando, sobre a fragilidade de nossas certezas, sobre a urgência de viver, todos nós mergulhados na perplexidade e estranheza. No livro assinado pelo crítico, jornalista, professor, poeta, Hildeberto Barbosa Filho, temos uma espécie de balanço de seus 66 anos dedicados ao ensino e à literatura. E que, desde o título, anuncia a leveza com que encarou e encara os dilemas que a vida colocou diante dele. Sobre este livro, remetemos o leitor a nosso artigo no ultimo numero da revista Correio das Artes, publicada pelo governo da Paraiba. O livro de Nauro Machado, póstumo, publicado sob os cuidados de Arlete Nogueira, esposa e guardiã dos legados de Nauro, ele própria excelente escritora, poeta, critica literária, intelectual das mais atuantes no estado do Maranhão, está a merecer um sério e profundo estudo, pelo modo como reflete sobre os grandes temas que a poesia mundial sempre abordou, a presença ou ausência de um Ser superior a dirigir a sina dos humanos, a morte, o destino dos corpos, da alma.

O livro de Eduardo Miranda Brandão, que tem o sub-titulo Padre João Ribeiro, personagens e História, é de um outro teor, anunciado desde o título. Estudioso dos acontecimentos que contribuiram a fazer de nós o Leão do Norte, com aquela certeza de “quem já foi mais”, no dizer de João Cabral de Melo Neto, nascido em Minas adotou Pernambuco e nele a cidade de Garanhuns, como segundo berço, apaixonado por sua história mas igualmente por suas paisagens, sobretudo pela zona da Mata e nela, o município de Tracunhaém, que viu nascer o grande herói e padre João Ribeiro.

Tracunhaém, pequeno povoado ainda hoje pobre, onde morou o Barão de Nazaré, companheiro de Tobias Barreto na defesa de causas feministas, no final do século XIX. Acontece que Eduardo também é poeta (autor de Poemas Incandescentes) e se torna poeta, quando assume como seu, o cenário formador da personalidade do herói da revolução de 1817. Escreve: “vemos ali, nos alvores do século XVI se implantar, no calor dos trópicos, civilização igualmente calorosa, cavalgando sobre a juba desse leão poderoso e invencível que ansiava romper para o agreste, para a zona da mata e para os sertões, auscultar atentamente suas vozes quiescentes e explorar, sem descanso, suas infinitas riquezas.”

Historiado competente, estudioso das fontes primárias, e secundárias, da geografia e do cenário cultural que viu surgir a revolução de 1817, Eduardo Brandão é atento à historia atual e à paisagem humana que ainda hoje se repete e que a Revolução queria ver modificada: “Quantos Joãos há em Tracunhaém, na zona da mata de Pernambuco, com sua pobreza que nos dilacera, com suas carências gritantes que nos deixam insones e  inconformados com sua trajetória secular de coronelismo frio e insensato. Esse cadinho de matizes vários, comprimiu,inclemente, os homens e mulheres dessa terra fértil e promissora contra seu solo argiloso, e então, pela intimidade física e pela própria opressão, tornou essas pessoas parte indivisível desse chão precioso, carne na terra, vísceras e coração, partes inseparáveis e pulsáteis desse solo sagrado.”

Apoiado em historiadores e cronistas mais antigos como Tollenare, Padre Lopes Gama, Arruda Câmara, bem como nos modernos cientistas e professores como Jorge Siqueira, Marcos Galindo, Ewaldo Cabral de Mello, para só citar alguns, Eduardo Brandão nos entrega um livro não somente útil para iniciantes de nossa história,  informativo, bem documentado, mas também para os especialistas que poderão se deleitar com o estilo agradável de se ler, mas também com a consulta das fontes indicadas no final do livro. Parabéns e muito obrigada por tudo isso, nosso colega Eduardo na Academia de Letras de Garanhuns.


Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.