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História

Academia de letras de Garanhuns

ACADEMIA DE LETRAS DE GARANHUNS

ESCORÇO HISTÓRICO

Filha do Grêmio Cultural Ruber van der Linden, nossa quadragenária Academia de Letras de Garanhuns nasceu nos estertores do ano de 1977, sendo a pioneira do interior de Pernambuco, porquanto, à época, apenas havia a Academia Pernambucana, de 1901, e, na Região Metropolitana do Recife, a Academia Olindense, de 1961. Remonta, porém, a bem antes o desiderato de prover a “Terra de Simoa Gomes”, reduto de sólidas tradições intelectuais, de um sodalício de letras. Não por outra razão, em discurso proferido por ocasião do primeiro aniversário da ALG, o magistrado Rilton Rodrigues da Silva, seu primeiro presidente, já ressaltava:

Esta Academia é o sigma de cem anos de tradição cultural de Garanhuns, somatório esplêndido da arte literária cultuada nestas plagas, e que se perdeu nas névoas não desvendadas do passado, remetendo a anos anteriores: à criação do Congresso Literário.

Fazia, assim, expressa referência ao clube que, entre 1895 e 1901, constituiu a precursora “ilha de ilustração” entre nós, congraçando os letrados locais em prol do aperfeiçoamento intelectual e do culto às belas-letras e à erudição, tão ao gosto finissecular. Ao Congresso Literário, seguiram-se outros, esplendidamente relacionados por Alfredo Leite Cavalcanti, em sua “História de Garanhuns”, e por Alberto Rêgo, em seu “Os Aldeões de Garanhuns”; os quais, não raro, procuravam conciliar, ao seu programa cultural, uma parte diversional-esportiva.

O fato é que a poética gleba que, já em 1878, servira de inspiração às românticas “Névoas Sertanejas”, do vate Belarmino Dourado, havia muito, reputava-se um baluarte interiorano de erudição. Tanto assim que, versando sobre a Garanhuns das duas primeiras décadas do século XX, José Pantaleão Santos consignaria, em seu delicioso “Um Nordestino”:

Com raras exceções, todos os moradores da cidade gostavam da leitura, e contam-se muitos os escritores e poetas que ali nasceram e se criaram, sem nunca sair de lá. Os jornais da terra, os semanários, já naquela época, aos domingos, mantinham a sua página de literatura. E mesmo o povo simples da roça, quando, aos sábados, ia à feira, comprava o seu livrinho de poesia sertaneja.

Em 1936, não era diversa a impressão do jurista goianense Edmundo Jordão, ao advogar, em artigo para o “Almanaque de Garanhuns”, a liderança do município, com esteio no que designava de “O Primado da Inteligência”:

Sem exageros, sem amor às fáceis afirmativas, Garanhuns é, no Nordeste brasileiro, a cidade do interior onde mais se lê; daí a sua liderança em Pernambuco. Aqui estão excelentemente instalados três educandários que honrariam os meios mais cultos do Brasil: o Ginásio (atual Colégio Diocesano), o Colégio 15 de Novembro e o Colégio Santa Sofia, todos oficializados e dispondo de um bom corpo docente. Circulam, no município, vários jornais, sendo um diário. 

Em nosso clima, viceja, dando os melhores frutos, a Sociedade de Cultura, que tem à frente o espírito brilhante e combativo de Miguel Jasselli. E, como expressivo fator de grandeza espiritual, existem aqui duas livrarias.

ANTECEDENTES ACADÊMICOS

Em que pese tamanha efervescência, pelos idos de 1940, finda a Sociedade de Cultura de Garanhuns, a intelectualidade local já se ressentia da efemeridade de suas associações culturais e recreativas. É que, se os tradicionais colégios, no unânime sentir, constituíam o mais relevante estímulo ao seu surgimento, e fomento à sua manutenção, a própria dinâmica estudantil, a reclamar eventuais transferências para as Capitais, acabava condenando-as ao esmorecimento e à fatídica extinção.

A propósito do assunto, em dezembro de 1941, Luiz Souto Dourado se lamentava, em artigo para o jornal “O Monitor”:

“O Bibliófilo” foi uma dessas malogradas tentativas de cultura.

Sacudiu a cidade no que ela tem de mais intelectual. Acabou-se com a saída de Zé Maria Mendes, seu diretor. Veio, depois, “O Paládio”. Vida muito curta. Sete números suados. Em seguida, o Centro Lítero-Social, iniciativa de Débora Vasconcelos.

Já de portas abertas, quase funcionando, tivemos de fechá-las. Faltou a compreensão dos estudantes. Surge, então, a “Cidade”. Advertida com a má-sorte das empresas anteriores, começou fazendo o impossível. Cansou também. Era natural.

Por essa época, alguns intelectuais garanhuenses já haviam atingido a imortalidade acadêmica em distintas plagas, onde se haviam radicado. Era o caso do beletrista, ensaísta e poeta Celso Vieira, fundador da Academia Pernambucana, em 1901, e o único garanhuense, até o presente, a chegar à Academia Brasileira, em 1933, da qual também seria presidente, em 1940.

Igualmente do jurista, contista e poeta Augusto Galvão, irmão do prefeito Celso Galvão, eleito para a Academia Alagoana em 1928, e dela presidente em duas oportunidades: de 1937 a 1946, e de 1953 a 1958. Bem assim do, entre nós, quase ignorado Oscar de Macedo de Holanda Cavalcanti, recebido, na gaúcha Academia Riograndense, em 1935.

Outro com profundas raízes em Garanhuns, embora natural de Santo Antônio das Queimadas, no atual município de Jurema, era o ensaísta, filólogo, poeta, professor e teólogo presbiteriano Jerônimo Gueiros, eleito para a Academia Pernambucana em 1929, e alçado à sua presidência entre 1938 e 1948.

Seria precisamente com o auxílio deste último, o qual enviou aos conterrâneos o Estatuto e o Regimento Interno da APL, que, no dia 1º de novembro de 1940, reunidos na redação da revista “Cidade”,

sob a liderança de Luís Maia, a plêiade de intelectuais formada por Antônio Pantaleão, Francisco Fernandes, Gasparino Damata, Jaime Luna, José Francisco de Souza, Josemir Correia, Nilo Pereira, Oscar Siqueira e Raimundo de Moraes, fundaria o primeiro tentame de uma Academia de Letras entre nós: o Centro de Cultura Intelectual Severiano Peixoto.

Para patrono do próprio Centro, foi escolhido o saudoso jurista, tribuno e ex-integrante do Congresso Literário, Severiano do Rego Chaves Peixoto, “literato de relevo da geração passada, orador de talento, que mereceu, dos seus contemporâneos, o cognome de Nabuco garanhuense”.

A partir do dia 10 de novembro de 1940, avançando pelo ano seguinte, os “centristas” fundadores e os que se aditaram à causa, entre os quais Erasmo e Hélio Peixoto, Israel de Carvalho e José Figueredo, postularam as cadeiras patronímicas, que tinham por patronos vultos garanhuenses: Afonso Pequeno (Mons.), Américo Maia, Antônio Barreto Coelho, Antônio Batista de Melo Peixoto, Arthur Brasiliense Maia, Belarmino Dourado, Calazans de Figueiredo, Edmundo Jordão Filho, Gumercindo de Abreu, Luiz Brasil, Pedro Chaves Peixoto.

Embora o Centro deparasse, nas palavras de Souto Dourado, “sede, uma biblioteca engordando e um pessoal disposto”, não resistiria ao precoce falecimento de seu mentor, primeiro presidente e máxima liderança, Luís Maia, em meados de 1945; nem à subsequente desmobilização e/ou transferência de outros centristas; frustrando, assim, os prognósticos positivos que o cercavam.

Dissolvido em 1949, em dezembro desse ano, Edson Nery da Fonseca, em visita a Garanhuns, já não lograria localizar o precioso acervo de sua biblioteca, malfadadamente disperso.

O GRÊMIO

O pungente fim do Centro Severiano Peixoto repercutiu além-fronteiras municipais. Da Capital, o vibrante intelectual Mauro Mota, em sua coluna para o “Diário de Pernambuco”, retomando conversa entretida com um amigo garanhuense, lamentava, em novembro de 1949, a “melancólica conclusão” a que ambos haviam chegado: A quase ausência de Garanhuns no atual panorama literário do Estado.

Nem do Mosteiro de São Bento, tradicional reduto onde intelectualidades do porte de Gasparino Damata, Pelópidas Soares e Souto Dourado haviam gravitado em torno da figura de Dom Jerônimo de Sá Cavalcanti, tido como o maior erudito do lugar, vislumbrava-se uma reação. Por tal razão, Mauro conclamava o próprio Dom Jerônimo, bem assim os professores Ageu Vieira e Uzzae Canuto, e os jornalistas João Domingos e José Francisco, a “darem um ar de sua graça e animarem os jovens valores da terra”.

Em realidade, o futuro imortal das Academias Pernambucana e Brasileira de Letras ainda não estava informado de que, havia poucos meses, mais precisamente na noite do dia 10 de fevereiro, em um recinto gentilmente cedido pelo clínico José Sales, um seleto grupo de jovens estudantes, a maior parte do Diocesano, liderados por Valdir Barbosa, e melindrados com esse pesaroso torpor intelectual, haviam fundado aquela que constituiria uma das mais longevas e prolíficas experiências associativas, com fins literários, já verificada no município: o Grêmio Cultural Ruber van der Linden.

Para patrono, foi escolhido o cientista e polímata Ruber van der Linden, recém-falecido, que, em seus breves 48 anos de existência, imprimira sua indelével marca aos mais diversos aspectos da vida da cidade, dotando-a, inclusive, da maior parte de suas áreas verdes e de muitos de seus mais notáveis equipamentos urbanos.

Entre os gremistas, ou “vanderlistas”, iniciadores, contavam-se, entre outros: Aderson Vila Nova, Aleixo Leite Filho, Almir Campos, Antônio Carlos Souto, Antônio Vaz da Costa Neto, Celso de Lima, Erasmo Bernardino Vilela, Francisco de Holanda Filho, Humberto de Moraes, José de Abreu, José Ferreira, Osvaldo Zaidan, Ruben Moreira, Ruy Bento.

Em seu programa, bosquejado no primeiro número do jornalzinho “O Grêmio”, saído à lume já a 07 de setembro, Celso Lima repisava a perene preocupação de “dotar

Garanhuns de uma agremiação cultural duradoura, o que antes, e por várias vezes, já fora tentado, quase sempre com êxito efêmero”. E a “receita” esposada não diferia muito das anteriores: Em relação ao movimento literário, programavam-se “disputas por cadeiras patronímicas, tendo por patronos grandes vultos da Literatura nacional”; previsão que acabaria cedendo à exigência estatutária de apresentação, pelos postulantes a gremistas, tão-somente de um trabalho literário de própria autoria.

Em sua extensa trajetória de mais de meio século, entre 1949 e 2002, o Grêmio alternaria períodos de efervescência e de paralisação, a par de um número flutuante e multifacetado de sócios, alguns dos quais viriam a projetar-se no panorama literário estadual e nacional, a exemplo de: Antônio Galindo, Flávio Lyra, Gladstone Vieira Belo, João Batista Leal, Lycio Neves, Maurilo Matos, Maviael Medeiros, Mauro Lima, Nelson Fernandes, Nelson Paes, Nivaldo Tenório, Sebastião Jacobina e Waldimir Maia Leite.

Em comovente depoimento acerca de sua experiência como vanderlista, o folclorista, poeta e professor Aleixo Leite assim viria a expressar-se, em março de 1980:

A minha promoção intelectual concedida pelo Grêmio, o qual considero a minha escola de desinibição, projetou-me na cidade e nos lugarejos vizinhos, onde também passei a formar uma espécie de clube de leitores. Tudo começou com a desenvoltura daquilo que aprendia na sala de aula e aplicava nas reuniões. Continuei, por força de gratidão e de supremo reconhecimento, com o Grêmio nas minhas atitudes socioculturais. Participei de outros pelos municípios afora, e fundei associações de cultura por onde passei, na minha peregrinação de vinte e quatro anos de magistério, mas nenhum me proporcionou as emoções do primeiro.

Bem “en passant”, pode-se ressaltar as gestões, na década de 1950, do próprio Aleixo, que o oficializou; de Geraldo Calado, autor de sua bandeira, com a inspiradora inscrição “Eloquentia et Sapientia”, e que o dotou de uma sede, ainda que provisória, obtendo-lhe também uma subvenção estadual, mercê do apoio do deputado Elpídio Branco; e Sílvio Apolinário, presidente à época das significativas solenidades comemorativas dos 10 anos.

Após uma má-fase, agravada pelos eventos nacionais de 1964, fruiu novo surto de animação sob a direção de Manoel Elpídio de Melo, que tomou parte ativa da inauguração do busto do patrono no antigo Parque Pau Pombo; bem como a partir de 1968, sob os auspícios da chamada “nova geração”, liderada por João Marques, ínterim no qual, numa promoção do GCRL, seria lançado o primeiro volume da “História de Garanhuns”, de Alfredo Leite Cavalcanti.

POR UMA ACADEMIA

Baldados os diligentes e incessantes esforços das lideranças gremistas, em meados de 1970, à falta de uma sede própria, “a velha Casa de Ruber van der Linden, que, para muitos, fora a Academia de Letras de Garanhuns”, mais uma vez, não funcionava.

Em realidade, desde o arrefecimento pós-1964 que a intelectualidade garanhuense reclamava uma solução definitiva para a questão. Em agosto de 1965, por exemplo, o professor Antônio Gonçalves Dias chegara a sugerir, em artigo para “O Monitor”, a criação de uma Academia, cujo anteprojeto estatutário, inclusive, já se acharia redigido, esperando-se, para breve, a publicação de um edital, conclamando os interessados a tomarem parte das reuniões de organização. Em suas palavras:

Esta cidade é, inegavelmente, um dos grandes centros de cultura, não só de Pernambuco, mas até mesmo do Nordeste. Sendo assim, faz-se mister que as Letras sejam divulgadas e cultivadas pelos amantes da cultura e do desenvolvimento das ciências, porque vivemos numa época de grandes mudanças no curso da História.

À incômoda e recorrente paralisação do Grêmio, somar-se-iam as notícias de que, em julho de 1970, intelectuais de Goiana estariam em vias de fundar uma Academia; e de que, em novembro de 1973, Valdemar de Oliveira, imortal da APL, procurava mobilizar os caruaruenses para idêntico fim.

Ainda em 1973, o jurista José Francisco, ex-centrista, recém-nomeado diretor do Centro Cultural de Garanhuns, informava ao amigo Waldimir Maia Leite que pretendia viabilizar a fundação da acalentada Academia, tendo como sede precisamente a antiga estação ferroviária, então restaurada e aprovisionada com auditório, biblioteca, galeria de arte e sala de estudo.

A iniciativa foi entusiasticamente aplaudida pelo canhotinhense Costa Porto, também da APL, e outrora estudante em Garanhuns. Em artigo para o “Diário”, afiançava ter a cidade plenas condições “para figurar, assim, a modos de uma pequena Atenas pernambucana”, com seus “três grandes centros culturais: o Diocesano, o 15 de Novembro, o Santa Sofia”, “podendo e devendo constituir-se pioneira”. E arrematava: “A nossa Casa de Carneiro Vilela, estou certo, forma unânime, aplaudindo e encorajando a feliz iniciativa do Dr. Souza, um oásis nesta saarização que precisa acabar”.

Enquanto a ideia da Academia não vingava, o Grêmio diligenciava junto ao Poder Público, com vistas a superar a questão da sede para poder voltar a funcionar.

Embora, no sentir do ex-presidente Aleixo Leite, não houvesse constituído propósito do GCRL tornar-se, no futuro, em Academia, “pois, para tanto, não seriam capazes de imaginar os seus modestos iniciadores”; o ex-centrista e sócio-honorário vanderslita, Raimundo de Moraes, era categórico ao afirmar que, durante os 29 anos em que havia prestado sua pálida colaboração intelectual à Casa, seu “traço” sempre fora o de, “quando se falava do progresso das Letras em Garanhuns, ventilar a fundação de uma Academia”, tendo em vista a “expectativa de uma instituição desse porte vir a aprimorar o nível cultural” local; proposta, aliás, que sempre era “recebida com satisfação entre os companheiros”, os quais alimentavam a mesma esperança.

Duas gratas circunstâncias, não obstante imprevistas, viriam, porém, a concorrer decisivamente, como notas diferenciais, para a viabilização do anseio. A primeira foi, em abril de 1973, o regresso à terra natal, em ânimo definitivo, do poeta Alfredo Correia da Rocha, havia muito radicado em Santos. Sem perda de tempo, procurou ele manter contatos preliminares com intelectuais conterrâneos, visando à criação de uma Academia, em cujo “modus processandi” era versado. Na imprensa do Recife, assim se expressava:

Não é nada agradável vermos uma cidade como Garanhuns, de reconhecidos foros culturais, ressentindo-se da ausência de uma sociedade que possa motivar a atividade intelectual de nossa gente. No passado, as nossas gerações sempre se preocuparam com a cultura. Havia, aqui, o Grêmio Cultural Ruber van der Linden, de onde saíram figuras as mais brilhantes de nossas Letras. 

A fundação de uma Academia em Garanhuns, além de representar uma afirmação da vocação intelectual do nosso povo, seria um atestado de que zelamos pelas tradições dos nossos antepassados.

Sob a égide de Alfredo, de Raimundo e de Humberto de Moraes, em agosto de 1974, depois de vários anos de recesso, a “Casa de Ruber van der Linden” tornava à atividade, a ela se integrando, ou reintegrando, entre outros, Argemiro Lima, Edil Graciliano de Melo, Gonçalves Dias, José Maria Costa, José Pedro da Silva, Maviael Medeiros e Sebastião Jacobina.

Na reunião do dia 16 de novembro, regressando às reuniões após forçoso afastamento por motivo de saúde, Raimundo pronunciava eloquente e emocionante discurso, revelando a possibilidade real de o Grêmio vir a ser, em breve, alçado à condição de Academia, por haver constatado, naquela ocasião, a assistência de uma plêiade capaz de preencher os requisitos.

Em dezembro de 1975, por sua vez, em reunião presidida por Argemiro Lima, era definida uma Comissão, composta por Alfredo Rocha, Maurilo Matos e Raimundo de Moraes, com vistas a proceder a um estudo sistematizado acerca dos valores intelectuais que, no passado, viveram em Garanhuns, a fim de subsidiar a criação das primeiras cadeiras patronais, viabilizando a transformação do Grêmio em Academia.

Não é nada agradável vermos uma cidade como Garanhuns, de reconhecidos foros culturais, ressentindo-se da ausência de uma sociedade que possa motivar a atividade intelectual de nossa gente. No passado, as nossas gerações sempre se preocuparam com a cultura. Havia, aqui, o Grêmio Cultural Ruber van der Linden, de onde saíram figuras as mais brilhantes de nossas Letras. 

A fundação de uma Academia em Garanhuns, além de representar uma afirmação da vocação intelectual do nosso povo, seria um atestado de que zelamos pelas tradições dos nossos antepassados.

Sob a égide de Alfredo, de Raimundo e de Humberto de Moraes, em agosto de 1974, depois de vários anos de recesso, a “Casa de Ruber van der Linden” tornava à atividade, a ela se integrando, ou reintegrando, entre outros, Argemiro Lima, Edil Graciliano de Melo, Gonçalves Dias, José Maria Costa, José Pedro da Silva, Maviael Medeiros e Sebastião Jacobina.

Na reunião do dia 16 de novembro, regressando às reuniões após forçoso afastamento por motivo de saúde, Raimundo pronunciava eloquente e emocionante discurso, revelando a possibilidade real de o Grêmio vir a ser, em breve, alçado à condição de Academia, por haver constatado, naquela ocasião, a assistência de uma plêiade capaz de preencher os requisitos.

Em dezembro de 1975, por sua vez, em reunião presidida por Argemiro Lima, era definida uma Comissão, composta por Alfredo Rocha, Maurilo Matos e Raimundo de Moraes, com vistas a proceder a um estudo sistematizado acerca dos valores intelectuais que, no passado, viveram em Garanhuns, a fim de subsidiar a criação das primeiras cadeiras patronais, viabilizando a transformação do Grêmio em Academia.

Nos pródromos de 1976, Mauro Mota, então presidente da Academia Pernambucana, onde ocupava a Cadeira nº. 20, fundada pelo garanhuense Celso Vieira; enviava à comissão o Estatuto e o Regimento Interno da APL, solicitados a fim de se poder dar prosseguimento aos trabalhos de fundação.

Por essa mesma época, a presidência do Grêmio oficiava ao prefeito Amílcar da Mota Valença, demandando a liberação da verba, recém-aprovada pelo Legislativo Municipal, destinada à aquisição da anelada sede própria: o belo imóvel sito à Rua 15 de Novembro, nº. 287, em estilo eclético, onde outrora, a partir do segundo meado da década de 1920, funcionara um templo do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, e cujos predicados histórico-arquitetônicos seriam tão bem analisados, em artigo, pelo atual presidente da ALG, Luís Afonso Jardim.

Mercê do desprendimento e da generosidade do proprietário, Valdemar José dos Santos, em março de 1977, o Grêmio, finalmente, punha termo à sua maior aflição, entrando na posse definitiva da sede própria.

No dia 23 de agosto de 1977, porém, um duro golpe se abatia sobre a comissão: falecia Alfredo Rocha, inestimável perda que agravava as igualmente recentes de Antônio Galindo e Nelson Fernandes. Porém os vanderlistas não se permitiriam esmorecer, prosseguindo em sua indeclinável marcha rumo à fundação da Academia de Letras de Garanhuns já por ocasião do iminente centenário da elevação da antiga sede municipal à honrosa categoria de “cidade”, a ocorrer em 04 de agosto de 1979, e para o qual se programavam condignas comemorações.

A segunda nota distintiva nesse processo foi a adesão à causa do jurista Rilton Rodrigues, filho do célebre Major Pedro Rodrigues, de tradicional família garanhuense. Na reunião do dia 03 de setembro, após prestadas as devidas homenagens à memória de Alfredo Rocha, o então promotor de justiça de Canhotinho e professor de Psicologia da Faculdade de Filosofia, atual FFPG, era aclamado, por unanimidade, como sócio-efetivo do Grêmio, proferindo memorável discurso no qual sugeria à diretoria, presidida por Maviael Medeiros, fossem envidados os necessários esforços junto ao comércio, à indústria e aos poderes constituídos, de modo a, definitivamente, fundar a Academia, “que, há muito, tem sido um sonho de todos os gremistas”.

A ACADEMIA

A Academia de Letras de Garanhuns foi fundada em sessão especial do Grêmio Cultural Ruber van der Linden, realizada na noite do sábado, dia 22 de outubro de 1977, sob a presidência de Maviael Medeiros, coordenada por Rilton Rodrigues e secretariada por Humberto de Moraes. Na ocasião, o gremista Enoch Burgos propôs a criação do sodalício, incumbindo a Rilton, por delegação do presidente, fazer a declaração formal e solene, que foi aprovada pela unanimidade dos presentes, sob efusivos aplausos.

Ademais dessas lideranças, fizeram-se presentes, entre vanderlistas e convidados: Alberto Teixeira, Antônio Gonçalves Dias, Argemiro Lima, Aurélio Muniz Freire, Duque Rodrigues Sampaio, Edil Graciliano de Melo, João Calado Borba, José de Abreu e Santos, José Luiz de Carvalho, Luiz Ferreira de Melo, Maurilo Campos Matos, Nelson Paes de Macedo, Sebastião de Azevedo Jacobina e Severino Roque. Raimundo de Moraes, não podendo comparecer por motivo de saúde, enviou uma mensagem, acompanhada de nomes de intelectuais garanhuenses já falecidos, os quais sugeria para inclusão no rol dos patronos.

Ato contínuo, foi eleita uma Comissão Organizadora, para encetar os trabalhos de implantação, presidida por Rilton, o mais votado, e também composta por Maurilo e Humberto; a qual já se reuniu no dia seguinte, a fim de deliberar acerca da relação das cadeiras patronais, fixadas em 21 (vinte e uma), bem assim sobre os intelectuais em condições de postularem vagas, mediante a apresentação de trabalhos versando sobre a vida e a obra de seus patronos.

No dia 04 de novembro, em atendimento à proposta do vereador Paulo Faustino de Albuquerque, o Grêmio era objeto de voto de congratulações, por parte da Câmara Municipal, pela fundação da Academia. Pouco depois, seria a vez de o presidente Maviael receber carta do presidente da Academia Brasileira de Letras, o caruaruense Austregésilo de Athayde, o qual fez questão de cumprimentá-lo pela alvissareira iniciativa tão logo foi dela informado pelo gremista Abel Pantaleão dos Santos, há muito radicado no Rio de Janeiro e então presidente da Associação Brasileira de Imprensa Periódica. Em termos:

Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1977.

 

Ilmo. Sr.

Maviael Medeiros

  1. D. Presidente do Grêmio Cultural Ruber van der Linden

 

Prezado Senhor:

            A Academia Brasileira recebeu, com muita satisfação, a notícia de que está sendo organizada em Garanhuns, Estado de Pernambuco, uma Academia de Letras, destinada a congregar os intelectuais num sodalício para o cultivo das letras e promoções da cultura.

            Todos os movimentos dessa natureza enquadram-se em nossos próprios objetivos, pois que contribuem para melhorar o nível literário do país, além de constituir um incentivo aos jovens, para maior e melhor preparação do seu espírito, abrindo-lhes a perspectiva de pertencerem ao quadro ilustre da Academia de Garanhuns.

A Academia Brasileira, sempre atenta aos valores literários do Brasil inteiro, saúda a irmã mais moça, augurando-lhe o êxito desde já garantido pelos nomes dos vinte e um membros que irão compô-la. Ao seu presidente e à Comissão Organizadora, apresento os nossos votos de vida próspera, oferecendo-lhes a colaboração que estiver ao nosso alcance proporcionar-lhes.

 Aceitem os cumprimentos fraternais da Academia Brasileira, pela palavra do seu presidente,

Austregésilo de Athayde

Presidente

Ainda sob o influxo das encorajadoras palavras de Austregésilo, no dia 29 de dezembro, o Estatuto era aprovado, definindo a novel instituição como apolítica; composta de 21 membros, independentemente de cor, religião e sexo; e tendo por fim, entre outros, manter uma biblioteca e promover concursos literários.

O Grêmio não só foi conservado, na condição de “instituidor”, como, por expressa previsão estatutária, a própria condição de vanderlista passou a constituir pré-requisito para a postulação acadêmica. Nas palavras de Argemiro Lima, a decana “Casa de Ruber van der Linden” se tornara o “degrau por onde subirão os futuros acadêmicos”, em um processo que, em feliz acepção, qualificava de “distensão literária de Garanhuns”

Foram sócios-fundadores: Antônio Gonçalves Dias, Argemiro Lima, Aurélio Muniz Freire, Duque Rodrigues Sampaio, Edil Graciliano de Melo, Enoch Burgos, Erasmo Bernardino Vilela, Gypson José Ayres, Humberto Alves de Moraes, João Calado Borba, José de Abreu e Santos, Manoel Hélio Monteiro, Maurilo Campos Matos, Mauro de Souza Lima, Maviael Cavalcanti de Medeiros, Raimundo Atanázio de Moraes, Rilton Rodrigues da Silva e Uzzae Canuto.

À continuação, estabeleceu-se que a Academia seria oficialmente instalada no dia 04 de fevereiro de 1978, em solenidade a realizar-se no Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti, deflagrando a própria Programação da Comissão do Centenário; ocasião em que também seria eleita e empossada a primeira diretoria, para o biênio 1978-79.

Na oportunidade, os trabalhos seriam presididos pelo benemérito prefeito Ivo Tinô do Amaral, que, por meio de seu representante na Câmara, o vereador Antônio Edson de Araújo, obtivera o reconhecimento oficial da ALG como de órgão de utilidade pública, nos termos da Lei nº. 1.786/78.

Ivo esteve à frente, de fato, tanto da reunião preliminar, que, pelo voto de 16 acadêmicos, com duas abstenções, consagrou a liderança de Rilton Rodrigues, elegendo-o para primeiro presidente efetivo; a Humberto de Moraes para vice; a Antônio Gonçalves Dias para bibliotecário; e a Aurélio Muniz Freire, João Calado Borba e Maurilo Campos Matos, para o Conselho Deliberativo; quanto da conseguinte sessão solene, que contou com a presença de diversas autoridades do mundo cultural, econômico, político e social de Garanhuns e de Pernambuco.

No dia 04 de março, por sua vez, realizava-se a primeira sessão ordinária; seguida, em maio, do início dos trabalhos de restauração da sede, para os quais Rilton contou com o irrestrito concurso da Edilidade, bem como de generosos homens de negócios, sobressaindo-se o diretor-presidente da Algodoeira de Garanhuns S/A (ALGASA), Arnaldo Arimá Carneiro de Albuquerque Filho, e o empresário Guilherme José Cosentino.

Ultimadas as obras em apenas 18 dias, na noite do dia 08 de junho, era reinaugurada a garbosa sede do Grêmio e da Academia, a qual, na mesma ocasião, recebia o I Encontro Árabe-Brasileiro, idealizado em reunião do Instituto Centro-Americano de Cultura, do qual Rilton fora diretor-regional. Do evento, participaram os embaixadores da Arábia Saudita, do Kwait, da Liga das Nações             Árabes e da República Dominicana, ademais do cônsul da Costa Rica.

Definidos os primeiros patronos, e oficialmente indicados, entre os sócios-fundadores, os 12 precursores postulantes, em outubro, iniciavam-se as saudações, defesas e diplomações, estendendo-se as sessões de posse até meados de 1980, com periodicidade praticamente mensal.

No dia 03 de fevereiro de 1979, por motivo do transcurso de seu primeiro aniversário, e de modo a encerrar, oficialmente, a Programação do Centenário, a Academia realizava memorável sessão solene, com a presença, entre outros, do escritor e sociólogo Gilberto Freyre.

Em agosto, porém, Rilton se via premido a renunciar à presidência, repassando-a ao vice Humberto de Moraes, em vista da nova Lei da Magistratura, que vedava aos juízes assumirem a titularidade de entidades civis. Não obstante, seria logo alçado à justa condição de “presidente honorário” do sodalício ao qual dedicara o melhor de si, e que consubstancia seu mais levante legado à posteridade.

Em outubro de 1981, eram escolhidos e convidados a se candidatarem os primeiros gremistas não-fundadores: João Marques dos Santos, José Francisco de Souza, Sebastião Jacobina de Azevedo e Marcílio Lins Reinaux.

Em sua primeira fase, entre 1977 e 1997, a Academia ainda seria presidida por Erasmo Bernardino Vilela (1980-81), Gypson José Ayres (1982-83), Maurilo Campos Matos (1984-85) e Humberto Alves de Moraes (1986-). Consta, todavia, que, já a partir dos meados da década de 1980, amargaria períodos de inatividade, devido ao falecimento de alguns acadêmicos e às inevitáveis transferências de outros.

Não obstante, as atividades seriam decisivamente retomadas em 1997, sob os auspícios do poeta João Marques, autor do “Hino de Garanhuns”; período em que o Estatuto sofreu a primeira reforma (2003), extinguindo-se o pré-requisito da condição de gremista para a postulação de vagas, e sendo o número de cadeiras elevado, bem como substituídos alguns dos antigos patronos (José de Alencar, José Lins do Rego, Machado de Assis etc.) por vultos garanhuenses.

Também foi nessa segunda fase (1997-2013) que se realizaram, com absoluto êxito de crítica e de público, o I, II e III Festivais de Literatura de Garanhuns (FLIG), entre os anos de 2006 e 2008, sob o patrocínio intelectual da ALG, com a coadjuvação da Academia Pernambucana, da Academia de Artes e Letras do Nordeste e do Poder Público.

Por derradeiro, a partir de 2013, deflagrava-se a terceira e atual fase de nossa Academia de Letras de Garanhuns, nessa admirável trajetória de mais de quatro décadas, ora sob os auspícios do jurista Luís Afonso de Oliveira Jardim, descendente do ilustre escritor, e máximo expoente das Letras garanhuenses em todos os tempos, Luís Inácio de Miranda Jardim.

(Texto: Ígor Cardoso)

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