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O mundo da leitura e a leitura do mundo

“O mundo é um livro”. Esta frase é atribuída ao filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). Uma frase curta e simples, mas que se reveste de uma significância ímpar. Isso porque essa frase aponta para o fato de que o tempo todo – queiramos ou não – a vida nos impele à leitura. A leitura que a gente faz dela. O tempo todo a vida exige que estejamos interpretando o que nos circunda, o que nos move, o que nos desafia, o que, enfim, se apresenta diante de nossos sentidos.

Ler, portanto, é um ato que nos acompanha desde que nascemos. A leitura, nesse sentido, entendida como uma forma de observação nossa diante do mundo, e a interpretação que damos a ele.  É a partir disso que Paulo Freire, em seu texto “A Importância do Ato de Ler” (1988), defende que “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. O que Freire quer dizer, em outros termos, é que antes de nos apropriarmos do código escrito/alfabético já temos a capacidade de interpretar o mundo/contexto o qual estamos inseridos. “A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral”, diz o patrono da educação brasileira.

Frente a isso, somos colocados na perspectiva da possibilidade da leitura da palavra e da leitura do mundo. Não estras leituras enquanto formas divergentes. Mas como formas que se complementam, que se alimentam, que se fundem, que lançam luz sobre a realidade. Ou seja, ainda na mesma linha do que Paulo Freire prega: “movimento do mundo à palavra e da palavra ao mundo está sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo através da leitura que dele fazemos”.

Assim, a leitura se coloca como um instrumento de compreensão e apreensão da realidade. Sem a capacidade de leitura mundo-palavra, ficamos à deriva no mar da vida, que ora se apresenta com águas tranquilas, e ora com águas revoltas. Pra cima de qualquer pessoa que seja. É um eterno fluxo, cuja estabilidade é sinônimo de incerteza. Então a leitura se coloca como ferramenta para que estejamos mais atentos/resistentes às pancadas das incertezas.

O mundo da leitura é mágico. Nele, enxergamos possibilidades, novos caminhos e o universo do diferente. A leitura do mundo faz com que despertemos para cultivar o nosso espírito crítico, que deve se lançar sobre a leitura da palavra. Esta, nos encaminha para o que há de escondido tanto no texto escrito quanto no texto oral.

Ao passo que a leitura do mundo nos leva a pensar o real, a leitura da palavra nos leva a pensar nas possibilidades do real. Ler é, portanto, um ato de pensar o local que me encontro e o local o qual eu poderia/posso estar na realidade. Aí que a leitura se torna uma revolução interior. Porque a leitura nos desloca: faz com que deixemos de pensar o imediato e o supérfluo para pensar no mundo do possível.

Em última análise, ler é um ato de expandir-se. De deixar o óbvio e adentrar em outras vias. Assim, se o “mundo é um livro”, um livro também é um mundo. É esse mundo que diariamente escrevemos páginas. Reescrevemo-las. Folheamos. Saltamos capítulos. Desistimos. Corremos atrás de outros mundos. Fazemos novas leituras. Tentamos achar tempo para novas leituras. Somos desafiados a fazer leituras novas. Posto que ler também é desafiar-se. Ininterruptamente.

 

 

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